resenha do livro

CAPA_MÓDULO4
O livro A psicanálise dos contos de fadas”, escrito por Bruno Bettelheim em 1903relata portanto, perspectiva da psicanálise, as principais características e a importância dos contos de fadas para o bom desenvolvimento da criança. Ele enfatiza que os contos de fadas está diretamente ligado com a forma com que a criança vai lidar com os conflitos internos a partir do contato que ela (a criança) vai ter ou não com as mais variadas histórias do universo infantil, e dirige a criança para a descoberta da identidade e comunicação.

A divisão da psique humana (id, ego e superego), proposta pela tópica da psicanálise de Freud, de acordo com Bruno Bettelheim relaciona-se com as histórias infantis assim como a própria ação do inconsciente da criança na vida dos personagens. Um exemplo básico de projeção, um dos principais mecanismos de defesa, seria de que a criança vê nos personagens desses contos os próprios conflitos e isso faz com que ela enfrente os pais, o próprio "id" e alguns desejos dele barrados pelo superego em função do ajustamento às normas da cultura, sugerindo para a criança “experiências para a formação do caráter” (p.32).

O autor também aborda nesse livro que os contos ou estórias de fadas também mostram os conflitos "edípicos"  que acontecem durante a infância na fase fálica e são apresentadas para a criança através da relação entre os personagens, como por exemplo, entre o rei e a princesa, entre a madrasta e a princesa. Se os conflitos "edípicos" não forem resolvidos, na idade adulta a
pessoa poderá ter dificuldades em lidar com conflitos dos futuros filhos.

Outro aspecto importante o qual Bettelheim relata no livro é sobre a importância das fantasias para a criança as quais ela pode tornar-se mais independente dos cuidados primários dos pais e comparando os contos de fadas, a criança pode ser capaz de ser dona do seu próprio reinoou seja, controlar os próprios desejos e fazer as escolhas necessárias.

O livro trata-se da descrição de alguns aspectos importantes que a realidade é representada para a criança na forma de contos de fadas. Alguns contos citados na primeira parte do livro, revela-se os mais antigos e conhecidos dos Irmãos Grimm”, como por exemplo “As três linguagens”, “Simbad o marujo", "Simbad o carregador”. Alguns desses contos existem dos mais variados tipos desde a representação da adolescência até a existência de características contraditórias na personalidade como no conto “Dois Irmãos”. A criança não entende o real objetivo do conto, mas de forma inconsciente e simbolizada ela entende que o que se passa com ela e o personagem é muito semelhante.

O conto João e Maria, simboliza para a criança a fase em que ela tem que se separar da mãe e renunciar aos desejos orais. Isso faz com que por mais que ela esteja numa fase mais madura da infância, tenha fixação por seus anseios da fase oral , e ela precisa se libertar deles.

Os dois irmãos passam por conflitos de serem abandonados pelos pais, o que simboliza a perda
da ligação dependente da mãe, e faz com que eles saem de casa e no decorrer da história precisem enfrentar uma bruxa que no início, parece carinhosa e dão a eles um “afeto” materno
que perderam, mas depois a bruxa revela-se e eles precisam jogá-la no caldeirão para “devorá-la” antes que a própria bruxa os faça. Depois de vencer a bruxa, voltam como heróis pra casa, onde agora encontram a felicidade.

Chapeuzinho Vermelho, revela-se um conto diferente em relação ao que o conto João e Maria simboliza para a criança. Apesar dos dois contos retratarem o medo de ser devorado, Chapeuzinho pelo lobo e João e Maria pela bruxa, esse conto representa a transição da menina
(chapeuzinho) para mulher durante a puberdade, a qual reativa os sentimentos de conflitividade
"edípica". Por sua vez, o lobo é a consequência da menina agir pelo princípio do prazer, e desobedecer as orientações da mãe. Por isso que esse conto retrata tanto os conflitos "edípicos"
da menina assim como o conflito interno entre o princípio do prazer e o princípio da realidade.

Em João e o de Feijão, o conto simboliza para a criança a fase fálica, onde estão presentes os conflitos "edípicos". A família (João e a mãe) precisa arranjar dinheiro para alimentar-se pois a vaca leiteira, até então considerada o sustento da família, não está dando mais leite. De forma inconsciente, a vaca seria uma metáfora da mãe, a qual faz com que a criança renuncie ao seio e os desejos orais e procure amadurecimento no ambiente externo, longe de casa. Por isso a mãe de João pede que ele consiga vender a vaca para que compre alimento. Mas João acaba trocando a vaca por “feijões mágicos”. A mãe de João o ridiculariza, mas isso não o faz desistir, até que os feijões florescem e ele escala o pé de feijão descobrindo um reino nas alturas, onde habitam Ogro (criatura mitológica do folclore europeu. Quase sempre, é retratado como um gigante de aparência grotesca e ameaçadora, que se alimenta de carne humana) e sua esposa.

O medo de João ser pego pelo gigante, também chamado de "Ogre" (palavra de origem francesa), em algumas versões da história, simboliza para a criança o medo dos pais descobrirem a atividade masturbatória da criança.

Em Branca de Neve, a versão mais conhecida é dos Irmãos Grimm, a qual a menina foi desejada pelos pais de um reino, com características específicas: branca como a neve, rosada como o sangue na neve, e com cabelos negros como da janela que tinha a moldura de ébano negro. A principal simbolização nesse conto é o conflito narcisante que a criança passa, demonstrado no conto pela rainha sentir-se ameaçada pela beleza de Branca de Neve e assim tomada por um ciúme da menina que é o amor do pai pela filha e a filha pelo pai. A rainha madrasta de Branca de Neve, manda o caçador matá-la, mas ele que representa proteção de um pai, não consegue executar a obrigação e manda a Branca de Neve fugir. A criança privada da proteção do pai, precisa, então lutar por si só. Branca de Neve foge e encontra uma casa onde moram sete pessoas na casa, que seriam os sete anões. Eles trabalham muito como mineradores, e simbolizam para a criança os sete dias da semana. Os anões deixam Branca de Neve ficar, mas se ela ajudar na casa, limpando, costurando, cozinhando. Isso revela a criança a importância
do trabalho nos sete dias da semana. Apesar dos conselhos dos anões, a rainha tenta matar Branca de Neve, sendo na terceira tentativa uma maçã envenenada, Branca de Neve, adormece
e acordará com a chegada do príncipe e que lhe dará o beijo apaixonado. Esse tempo que
Branca de Neve fica desacordada revela então uma gestação onde ela vai acordar amadurecida
e pronta para casar.

Em “Os cachinhos de ouro e os três ursos”, o principal conflito que é simbolizado para a criança é o da identidade sexual. Cachinhos de ouro representa um estrangeiro que ao fugir de casa, encontra uma casa simples, mas acolhedora que aparentemente foi abandonada pelos seus moradores. A menina, muito curiosa, espia pela janela, depois pela fechadura e finalmente entra na casa. Por ela não saber ainda quem realmente é e estar buscando a si mesma, ela vai experimentando tudo de cada urso. Ao entrar na casa, Cachinhos de Ouro observa que a casa é
habitada por três ursos, pois tem pratos, camas, cadeiras de três tamanhos diferentes. De modo
geral, o três simboliza a busca da identidade pessoal e social(p.260). Primeiro, Cachinhos de
Ouro escolhe o prato do pai porque quer s e ligar mais a ele, sendo escolhida também a cama e
cadeira do Papai Urso. Mas a cadeira não lhe serve por ser “muito dura” e o mingau está “muito
quente”. Então Cachinhos representa uma criança (menina) que em uma decepção "edípica"
profunda, volta-se a relação inicial com a mãe. Por isso que Cachinhos tenta se enquadrar” na cadeira e comer o mingau da mãe. Depois ela finalmente se identifica com o s objetos do bebê urso o qual tem cadeira quebrada, e cachinhos é tomado por um desejo de estar no lugar do bebê. Esse anseio pode ser representado pela criança que é surpreendida com a chegada do
irmão mais novo, e por não aceitar isso usando da regressão para ganhar a atenção dos pais,
comportando-se como um bebê novamente.

Os dois últimos contos, são a Bela Adormecida e a Borralheira. Em “A Bela Adormecida”, o conto representa para a criança as mudanças que o corre entre a puberdade e adolescência, um período ativo e passivo. O conto mostra para a criança que é preciso de ter coragem e enfrentar os perigos da passividade. A criança é tomada por um impedimento dos pais para o despertar da sexualidade. Por isso que os esforços mal intencionados dos pais podem adiar a conquista da maturidade dos filhos, sendo esse o adormecer por cem anos da Bela Adormecida. O despertar da sexualidade da criança seria no conto, quando a bela adormecida acorda encontra o príncipe, como em Branca de Neve, tendo a união com o amado.

Em “A Borralheira”, nome mais antigo, por isso o conto é mais conhecido como “Cinderela”. Esse é
um conto o qual a protagonista vivencia um sofrimento e esperanças que constituem a rivalidade fraternal, mas que no final vence as irmãs más que a maltrataram. Por isso que o conto simboliza para a criança substituição das relações fraternas pelas relações entre irmãos adotivos, e isso faz com que a mãe/madrasta da Borralheira, tenha mais amor por suas filhas de sangue do que a enteada, e deixa que as filhas humilhem e a nomeiam de Borralheira. A garota que é menosprezada pela mãe adotiva, não acredita em si mesma e se sente incapaz ser melhor que as irmãs. Esses sofrimentos também são sentidos pelas crianças que sendo mais nova sente-se inferior ao irmão mais velho ou até a criança que é filha única sente-se menosprezada na presença de outras crianças.

A leitura desse livro considera-se fundamental para que os contos de fadas possam fazer parte da vida cotidiana das crianças. Por isso, é importante a indicação para os pais, professores, e outras pessoas que mantém algum tipo de grau de parentesco com a criança (avós, tios, padrinhos...) para que ela possa desenvolver-se de forma saudável e resolver seus conflitos internos, como a maioria simboliza os "edípicos", mas também externos em relação às renúncias
e ao amadurecimento.

Os contos de fadas tem significados diferentes para cada etapa da vida da criança por isso é importante escolher o mais adequado de acordo com os objetivos. Mas a leitura também pode ser feita por pré-adolescentes que também passam por conflitos internos externos, porém nesse caso, a interpretação da história vai ser bem diferente que a criança faz.

O livro apesar de ser bem extenso é essencial para um melhor entendimento sobre a função dos
contos de fadas na vida de uma pesso a, pois aquele que não teve contato com as histórias corre
o risco de não conseguir enfrentar os próprios problemas e amadurecer o suficiente. Após a
leitura, observa-se que os contos de fadas não são apenas um lazer, mas melhoram a criatividade do leitor e ajudam a enfrentar como já citado antes, os próprios conflitos.

REFERÊNCIA: BETTELHEIM, Bruno. A p sicanálise dos contos d e fadas. 11ed. Rio de Janeiro: P az e Terra, 1980. (Literatura e Teoria Literária).